Martim Afonso Alvim Nóbrega não tinha tempo a perder. Tempo, na verdade, era talvez a sua maior escassez, que desde pequeno ele aprendeu a administrar em contagem regressiva — mesmo não fazendo ideia de quando exatamente seria o marco zero.
Ele ajeitou a peruca cor de rosa em sua cabeça até ficar alinhada. Os fios sintéticos o faziam parecer um cosplay mal feito daquela menina de LazyTown, o completo oposto de como seria esperado encontrar o príncipe herdeiro de Costa Malva por aí. Mas essa era mesmo a intenção: que ele não se parecesse consigo mesmo.
Alguém entrou no banheiro, deixando o barulho da música do lado de fora invadir o cômodo até a porta se fechar de novo. Afonso olhou de soslaio o homem jovem e alto, que sequer prestou atenção no rapaz de peruca rosa em frente à pia. Devia estar bêbado demais para isso. Afonso, também, estava consideravelmente embriagado, mas nada que aquele banheiro de chão pegajoso e cheiro duvidoso não tivesse visto pior.
Ao menos eu não tô vomitando, pensou. Algo que o homem jovem e alto não poderia dizer sobre si mesmo, a julgar pelo barulho que vinha da cabine onde se trancou.
Com a cabeça rodando um pouco, Sua Alteza Real, o Príncipe Herdeiro de Costa Malva saiu do banheiro direto para a pista lotada da balada no centro da cidade onde tinha se metido. Não era a primeira vez que fazia isso e muito menos seria a última. Ele até podia curtir a noite em uma dessas baladas exclusivas dos ricos e famosos em que nada do que acontecia lá dentro vazava para as revistas de fofoca, mas que tipo de vida triste seria essa?
Ele precisava de adrenalina.
— Onde você se meteu? — a voz familiar soou atrás dele, mais alta do que a música ensurdecedora tocando na pista de dança, para onde Afonso retornou.
Afonso se virou com um sorriso bobo e embriagado.
— Sentiu saudade? — brincou.
Ethan revirou os olhos, mas abriu um sorrisinho também. Já estava acostumado com Afonso ficando… digamos… mais pegajoso quando bebia.
— Ainda bem que não é você que precisa dirigir — ironizou.
Estava usando uma jaqueta preta vintage que o príncipe lhe deu de aniversário dois anos atrás. Ele tinha verdadeiro apego por aquela jaqueta, que caía como uma luva no seu estilo meio punk alternativo. Jaquetas de couro, calças jeans na cor grafite, botas de combate e camisas de banda ocupavam 90% do seu guarda-roupa, então não foi nenhuma surpresa quando Afonso pensou nele ao avistar a jaqueta de motoqueiro em um brechó de Londres durante uma das suas visitas oficiais.
Ser o príncipe herdeiro significava que ele tinha que viajar constantemente. E ser o melhor amigo do príncipe herdeiro significava um quarto cheio de bugigangas que ele trazia de outros países.
Ethan passou o braço pelos ombros de Afonso, que era alguns centímetros mais alto. Ele ficava ridículo com aquela peruca cor-de-rosa, mas fazia parte da experiência.
— Vamos embora, as pessoas só estão nos esperando pra começar.
Afonso abriu um sorriso mordaz enquanto eles cortavam a pista de dança, em direção a uma das saídas de emergência. A porta se abriu em um beco atrás da boate, aparentemente vazio. Ethan encarou a única saída do beco, onde a aglomeração de pessoas já começava a ficar intensa. Ele soltou Afonso e encarou o relógio de pulso, marcando 2h45 da manhã. Normalmente, as pessoas começavam a chegar às 2h30.
— Quem você vai humilhar hoje? — Afonso perguntou.
Ethan tirou um maço de cigarros do bolso, algo que só fazia naquelas madrugadas em que os dois se aventuravam por onde definitivamente não deviam.
— Você sabe que esse treco pode te matar — disse Afonso, observando o amigo colocar o cigarro na boca. Ethan o fitou com aquele par de olhos tão escuros que eram como um mergulho na imensidão da noite. Afonso nunca conheceu ninguém com olhos tão pretos, era quase hipnotizante, se ele não fosse um completo imbecil.
— Tem coisas piores que podem me matar daqui a pouquinho e dessas você não reclama né, darling — ironizou, com seu sotaque soando fortíssimo enquanto as palavras saíam por entre o canudo do cigarro.
Aí estava. Um imbecil.
Afonso soltou uma risada e arrancou o isqueiro da mão do amigo. Liberou a chama para acender o cigarro, e depois guardou o isqueiro no próprio bolso. Deu uma batidinha no objeto por cima da calça e Ethan tirou o cigarro da boca para soltar a fumaça.
— O primeiro e último. Não admito que você morra de um jeito tão ridículo.
— Melhor morrer com emoção, realmente, é o que eu mereço.
— Com certeza — concordou Afonso. Ele massageou os ombros de Ethan, o girando na direção onde estavam as pessoas. — E você precisa resolver umas pendências antes disso.
Ethan soltou um suspiro.
— Fuck me — xingou em inglês, sua língua materna, e estalou o pescoço. — Isso é pra eu aprender a não cair na sua lábia de novo.
Afonso soltou uma risada irônica.
— Até parece que você não gosta.
Ethan virou o rosto, encontrando o amigo ridículo com aquela peruca. Afonso tinha uma estrutura óssea marcante, com um nariz mediterrâneo e lábios grossos que nada combinavam com as madeixas cor-de-rosa. Ele quase riu.
— Você não faz ideia do que eu gosto ou não, Your Highness. Sou uma pessoa complexa.
Foi Afonso, entretanto, quem soltou uma gargalhada.
Ele largou os ombros do rapaz e deu um tapa na sua nuca.
— Se tem alguém que sabe muito bem qualquer coisa sobre você, esse alguém sou eu.
— Oh yeah, eu sou o fiel escudeiro do Príncipe. Que destino cruel.
— Você sempre foi o fiel escudeiro de alguém, é o seu destino.
— De um príncipe é a primeira vez.
Afonso deu de ombros, confiante em seu próprio corpo.
— Já devia ter se acostumado.
— Well, como um bom fiel escudeiro, sou eu quem está prestes a morrer em seu nome. Promete sempre visitar a minha lápide?
— Eu vou te transformar em um Cavaleiro. Com medalha e tudo.
Ethan abriu um sorrisinho sarcástico dos seus.
— Agora sim você tá falando a minha língua.
Eles foram juntos até a aglomeração e Ethan jogou o resto do cigarro no asfalto, pisando com a ponta do tênis.
— Até que enfim vocês chegaram! — disse Cash, jogando os dois braços para cima quando viu os rapazes. Ele usava um moicano platinado e um casaco de pele de onça sintética no torso sem camisa. A calça estava caindo da cintura, deixando a cueca à mostra de propósito, e em seu rosto havia óculos de sol verde neon. Se meteu entre Ethan e Afonso (que naquela noite se chamava Raf), e passou o braço pelos ombros de ambos. — A corrida já vai começar, mas já vou avisando que o Sombra tá com sangue nos olhos. Ele não gostou nada, nada de ter perdido pra vocês na semana passada.
Ethan abriu um sorrisinho e Afonso sentiu uma sensação vitoriosa percorrer suas veias. Poucas vezes ele se sentia assim, sendo tomado pouco a pouco pela adrenalina. Ele tinha conhecido Cash duas semanas atrás naquela mesma boate e descoberto o que acontecia na rua de trás durante as madrugadas no centro vazio da cidade. Ethan, a princípio, se contentou em observar, mas Afonso sabia, pelo modo como ele olhava para a pista e acompanhava as curvas dos carros, que seu coração batia na mesma velocidade dos motores. E quase tão alto quanto.
Ele sentiu uma vontade muito grande de fazer algo arriscado. Dessa vez, seria o Diabinho falando no ouvido do melhor amigo, o tentando a fazer algo que Afonso sabia que ele já queria. Precisava apenas de um incentivo.
Cash se virou para os dois.
— É sério, fiquem atentos, porque o Sombra é maluco e pode tentar bater no carro quando perceber que não vai conseguir vencer — alertou. O carro, no caso, era dele.
Afonso assentiu, e sentiu uma comichão pela ironia daquilo tudo. Mordeu o lábio para conter a vontade de rir de nervoso, se perguntando o que aquele cara de gosto excêntrico diria se soubesse que, debaixo de uma peruca cor-de-rosa fajuta estava nada mais, nada menos que o príncipe de toda Costa Malva. O que Sombra faria se descobrisse que estava tentando bater no carro em movimento onde estava o melhor amigo do futuro rei.
Não que precisasse de mais nada para tornar aquela situação ruim. Eles já estavam cometendo um crime fazendo um racha em plena madrugada.
Sombra estava dentro do seu carro, encarando Ethan com um olhar assassino. Ele era um homem enorme, se quisesse poderia esmagar a cabeça dos dois rapazes só com as mãos. Afonso engoliu em seco, sentindo a barriga revirar pelo medo misturado com a excitação. Mas Ethan pareceu não se abalar, apenas abriu seu sorriso debochado e acenou para Sombra como se fossem velhos amigos.
Cash observou tudo, questionando mais uma vez desde que os conheceu se o estrangeiro batia bem da cabeça.
— Acho que você tá tranquilo hoje, né? — Cash zombou. Então apontou o dedo na cara de Ethan. — Apostei uma grana nas suas fuças, assim como vários outros que foram na minha. Vê se não me faz perder dinheiro nem credibilidade, estadunidense filho da puta.
— I wouldn’t dream of it — Ethan disse com naturalidade.
Eu nem sonharia com isso.
Cash deu um tapa no ombro dele e o empurrou adiante, até onde o carro estava, deixando Afonso para trás. O príncipe disfarçado observou enquanto o amigo entrava no carro e as pessoas pararam tudo para ver o embate mais aguardado daquela noite. Sombra, que raramente perdia para ninguém no asfalto, versus Ethan Berry, o estadunidense carismático.
Ele deu uma piscadela para Afonso, que lhe mostrou o dedo do meio.
— Quero minha grana! — gritou o príncipe, pois também tinha apostado dinheiro no amigo.
— Todos a postos! — disse o condutor daquela noite. Uma garota de botas plataforma se posicionou no meio da pista, segurando a bandeira quadriculada da largada.
Sombra fez o motor rugir, claramente querendo intimidar o adversário e causando expectativa na platéia. Porém Ethan não se abalou. Seus olhos estavam concentrados na pista, seu coração batendo forte pela adrenalina de estar prestes a acelerar a mais 150 quilômetros por hora em um circuito improvisado de curvas curtas no meio do centro da capital de Costa Malva, que na madrugada era vazio e silencioso, exceto pelo barulho dos carros de corrida.
— 3… — disse a garota de plataforma.
E Afonso sentiu algo se agitar ainda mais dentro de si. Queria estar dentro daquele carro com Ethan, sentindo tudo elevado à décima potência, sendo obrigado a não conseguir pensar no seu próprio futuro. Queria poder viver tudo aquilo, ser imprudente de verdade com a própria segurança, mas precisava se contentar em viver através do melhor amigo.
— 2…
Ele se aproximou da beira da rua, ao lado do grupo que não queria perder um segundo do que estava acontecendo. Cash lhe ofereceu um copo de bebida já pela metade e ele matou quase tudo em um só gole. O barulho dos dois carros a postos e do burburinho era ensurdecedor.
— 1!
A garota levantou a bandeira e tanto Ethan quanto Sombra pisaram no acelerador ao mesmo tempo, disparando como uma bala cortando a noite, indo tão rápido que foi como a chama de um foguete, fazendo o vento balançar a peruca cor-de-rosa do príncipe, que ficou para trás comendo poeira.
Se ele estivesse de coroa naquele momento, ela com certeza teria caído.
HI, FOLKS. WE’RE BACK!!!!!
Tô me sentindo voltando no tempo escrevendo isso aqui, E COMO É UMA SENSAÇÃO BOA. Espero que tenham gostado desse primeiro contato com meus meninos, o que acharam deles??? Se vocês comentarem bastante aqui eu posto o capítulo 1 antes do tempo, no fim de semana!!! Ansiosa pra saber as primeira impressões <3
Abaixo a playlist do livro:
bjs & qjs, brubs.





E juro, amei vc usando o "hi folks" foi tipo voltar no tempo kkkkkk
Mds bruna!!! Que delicia foi ler esse capítulo!! Minha eu adolescente está curadaaa 💖 ja to doida pra acompanhar os proximosss